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O futuro da arquitetura: serviço de luxo?

Como comida e roupa, os edifícios são essenciais. Toda edificação, mesmo a mais rudimentar, precisa de um projeto para ser construído. A arquitetura é tão central para a construção quanto a agricultura é para a alimentação, e nesta época de rápido avanço nas mudanças tecnológicas, a agricultura pode nos oferecer lições valiosas.

De acordo com o último censo, havia 233.000 arquitetos nos Estados Unidos; e os 113.000 que estão atualmente licenciados representam um aumento de 3% em relação ao ano passado. Além disso, há um número recorde de arquitetos que se qualificam para o licenciamento: mais de 5.000 este ano, quase o mesmo número de graduados com títulos profissionais. Existe agora 1-arquiteto-para-cada-2.900 pessoas nos EUA. Uma colheita abundante, certo?

Bem, eu diria que a evolução da agricultura nos dá uma imagem mais clara do nosso futuro. Em 1900, havia cerca de 76 milhões de pessoas nos EUA e seis milhões de agricultores; quase dez por cento de todos os americanos. Hoje, há mais de 300 milhões de pessoas nos EUA e apenas dois milhões de agricultores.

O que aconteceu? A mecanização e a tecnologia tornaram-se centrais para o cultivo de alimentos. A área necessária para a cultivar alimentos permaneceu praticamente inalterada, embora a população tenha crescido 400% e o número de fazendas tenha passado de oito milhões para dois milhões. Produzimos significativamente mais alimentos em menos lugares, usando muito menos pessoas.

A tecnologia é milagrosa.

Esse paradigma provavelmente será replicado na minha profissão. A tecnologia mudará a arquitetura na próxima geração tanto quanto mudou a agricultura no último século. Os sinais podem ser vistos aqui e agora.

Em dois artigos deste ano, a revista Architect apontou sinais de alerta para o futuro, embora os textos parecessem não focar nos pontos mais provocativos. Em janeiro, Kermit Baker, economista da AIA, em um artigo intitulado “How Many Architects Does Our Economy Need?” [De quantos arquitetos nossa economia precisa?], observou que apenas 45% dos que se formaram na escola de arquitetura terão um emprego na profissão. Esse número significou mais do que todas as outras estatísticas citadas.

No mês seguinte, Mimi Kirk defendeu a renovação da educação pré-universitária tanto para expor as crianças à importância do projeto quanto para expor o valor da arquitetura em nossa cultura e educação. Nada de errado com isso. Mas esta chamada foi em resposta à estatística da Association of Collegiate Schools of Architecture que apontou que as matrículas em escolas de arquitetura caíram 10% nos últimos cinco anos.

Se não houver empregos suficientes disponíveis para os graduados trabalharem na profissão para a qual se prepararam, é lógico que menos pessoas irão buscar se formar neste curso. Dado o custo, o tempo e o retorno esperado envolvidos, essa é uma resposta lógica do mercado de ensino superior.

Mais assustador ainda: nenhum dos artigos tratou das profundas mudanças que a Inteligência Artificial trará a todas as profissões — especialmente a arquitetura. Este assunto é um território desconhecido para o nosso mundo inteiro. Na arquitetura, as novas tecnologias inevitavelmente significarão que empresários do mercado imobiliário e empreiteiros terão mais capacidade de trabalhar completamente sem os arquitetos. Claro, alguns clientes sempre buscaram um tipo de projeto e os arquitetos responderam às suas diretrizes.Mas agora, a próxima geração de software responderá muito mais diretamente, com uma necessidade ainda menor dos comandos de um arquiteto. Os dados, uma vez coordenados por arquitetos, serão perfeitamente acessíveis e úteis sem o custo, a relação e a responsabilidade dos seres humanos, especialmente aqueles com uma educação em arquitetura.

Assim como os tratores, as colheitadeiras, os produtos químicos e a engenharia genética reduziram a necessidade de pessoas na agricultura, o atual subemprego em arquitetura que aceitamos — a baixa remuneração, o meio período e a falta de segurança no trabalho — pode eventualmente evoluir para um maior número de nós nos tornando desejáveis por causa de nossa humanidade.

Apesar dos avanços tecnológicos, as pessoas ainda adoram cultivar alimentos e construir edifícios. Soluções mais rápidas, mais baratas e mais fáceis, via tecnologia, podem minimizar a mão humana em fazer coisas em todos os aspectos da nossa cultura, mas o valor do toque humano pode redefinir a gama de produtos e serviços oferecidos em muitas áreas, incluindo a arquitetura.

Em projetos residenciais, essa ética prática tem feito parte do processo desde sempre. Mas, como profissão, os arquitetos não competiram com sucesso com as alternativas mais baratas em todos os níveis de projeto residencial. É por isso que apenas 2% dos projetos residenciais são criados por arquitetos. Por gerações tem existido plantas realizadas de forma mais rápida e mais barata, projetos desenhados mecanicamente ou simplesmente opções desenhadas por empreiteiros para os clientes.

O BIM e o Revit são apenas as primeiras plataformas para a transformação completa de como os edifícios são projetados e construídos. A tecnologia torna tudo mais rápido e eficiente — dá poder a todos para fazer mais —, mas não pode substituir a humanidade.

Prova dessa verdade básica pode ser encontrada na produção de alimentos. Eu moro na Nova Inglaterra. A indústria agrícola mudou para o oeste no século XX. Menos de 2% de nós agora são necessários para cultivar aqui. Mas alguns amam fazer isso, e todo mundo gosta de comer. Fazendas gigantescas a centenas ou até milhares de quilômetros de distância produzem enormes quantidades de comida barata — e mesmo assim, alguns alimentos idiossincráticos e deliciosos não fazem parte desse sistema corporativo, e ninguém no supermercado sabe quem o cultivou ou como foi cultivado.

Não é surpreendente que a agricultura artesanal tenha explodido em popularidade, criando uma subcultura de jantares em fazendas, mercados de orgânicos e programas de Agricultura Apoiada pela Comunidade, onde as cooperativas fornecem dinheiro em semente, colheitas são pré-compradas e você compra seus alimentos das pessoas que os cultivaram, com uma procedência conhecida. É vendido a um preço muito mais alto do que no Stop and Shop, mas não haveria muita agricultura na Nova Inglaterra sem a agricultura artesanal.

O fast food tem calorias, assim como sua sacola de supermercado cheia de produtos, mas há aqueles que são nutridos pela experiência de saber como a comida chegou até sua mesa. Se a tecnologia mudar a forma como os arquitetos trabalham, então o surgimento da produção local de alimentos como uma alternativa viável ao agronegócio produzido em massa pode fornecer um modelo para os arquitetos avançarem.

Os arquitetos de hoje podem oferecer essa conexão humana desde já. Nada é mais humano do que construir os lugares que habitamos, e pode haver um lugar para o arquiteto artesanal no emergente mundo da Inteligência Artificial.

Fonte: www.obra24horas.com.br